Se eu morto
falasse
revogaria tudo que vivo
falei
A vida é muito curta para sentir medo
Ou vergonha
Para resolver assuntos insolúveis
Ou dar ouvidos a incertezas

A vida é muito curta para um romance perfeito
para amores eternos
amigos inseparáveis
e arqui-inimigos

A vida é curta demais para se ter uma profissão
emoldurar títulos
administrar patrimônios
e se aposentar

A vida é muito curta para se fazer justiça
estabelecer leis
e dividir as pessoas conforme sua posição perante elas

A menor das filosofias não cabe numa vida
É muito pouco tempo para se vestir
ou saber o que comer

A vida é curta para pensar
adoecer e se curar
ter higiene
limpar

A vida é curta até para nascer
pois nascemos na hora de morrer

e não adianta se dar conta a tempo de fazer
o que encurta a vida
é justamente perceber
O de sempre
nunca muda

sendo que nunca e sempre
não existem
só existe a mudança

E nada é preciso mudar
posto que tudo é mudança
Preciso de amor
Se não tiver, eu faço
Eu sou terra molhada
Barro
Não tenho sede
Sou feito de tudo que se faz comigo

Algumas coisas de mim já foram queimadas
Então não derretem mais dentro dágua
Outras vão tomando forma

Eu não uso fôrmas
Mas sou praticamente uma delas com as mãos
Construo cenários de barro

Eu mesmo
sou uma das peças do meu cenário
Existem passagens nunca passadas
Ninguém passou vivo
E ainda vale tentar
Charme é um tipo de inteligencia fisica
Relativa ao tipo de alimento que te sacia
...
Há somente duas qualidades de matéria
As que são e as que não são solúveis em água
Prefiro gastar meu assunto contigo
Mas já é dia
E o expediente me obriga a deixar o menino guardado

Empilho garrafas vazias no cento
Fedendo a conversas da noite passada
Trabalho, respeito, identidade
Vou ter que sacar um dinheiro no caixa eletrônico
Preciso cortar o cabelo

Prefiro investir os meus dedos em ti
Mas nesse momento o teclado venceu.
as figurinhas que faltam para completar minha coleção
eu ganharei no bafo
faço sem vontade
adiando
a vontade
comecei a vida com 20 baldes de oito litros
cheios até a boca
de líquido

nenhum deles ficará de pé
todos deitarão no chute
o chôro no chão

espero beber meu último copo dágua
na última vez em que tiver sede.
Estou dizendo mas ninguém me ouve
Leia-me em voz alta
e escute o som da sua própria voz

Ou faça um desenho
Apague
Tome banho
e vá dormir que já é tarde.
O presente modifica o passado
O passado sustenta o futuro (mesmo que filho bastardo)
Para chegar ao futuro
É preciso passar pelo passado

Caras de mico leão dourado
Feitas por um mico leão dourado
sensibilizado pela iminente extinção da raça humana
Um ser "vil que sente" achou o problema social
Mas a função, era antropológica
O que precisa ser feito compreende-se na distância do corpo ao papel
Do papel em diante é uma questão de escolha.
Pelo tempo de silêncio
acumula-se o que há pelo caminho
Adição
Aprendizado por coleção
Não se faz nada se não sabe o que fazer
Não há o que fazer já que nunca se sabe
E as coisas acontecem sem querer
De repente
Apesar
De presente

O que fica exatamente como quero
Fica mal feito
Medíocre
A carne é melhor crua
Contém mais sangue
Quente, líquido e sob pressão
A ferida escorre do braço e pinta na mesa
Manchas vermelhas que lembram beijos de açúcar
Até que o sangue se seque
E o cotidiano limpe a bobeira com álcool

Um paninho com ação desinfetante
é suficiente para que a semana comece.
Ando aprendendo
Sabedoria para descansar
Toco a mesma pele
Toda hora ela responde
um novo som.
Há certa arrogância em se afogar em lagoa mansa
Mesmo o mergulhador, sem rumo, atordoado
Não sabe se o chão é o fundo
E nada no escuro em qualquer direção.
Aonde é em cima não sabe se desce ou se sobe
acaba descendo pra cima.
Convêm observar as bolhas de ar
que essas certamente sobem para a supefície
Mas é pra lá que eu vou?
...
Já sei a saída
Só não encontro a entrada.
Se me sobrasse tempo, eu trabalhava;
Mas tomaram todo o tempo restante
De uma outra parte já desperdiçada
Sujaram meus ternos de tinta
Roubaram as minhas cuecas
Agora só presto para namorar, matar a sede e entorpecer
Meu trabalho é dar o exemplo do que não fazer
Enfio a mão inteira no que me dá saliva
Jogo cigarro no chão para ter no que pisar
Não posso mais andar; só correr!

Vivo de matar o amor para comer.
Toque em mim para me fazer sumir